segunda-feira, 28 de março de 2011

Material apresentado na Convenção Internacional de Artes Marciais

O Prof. Everson índio foi o responsável na Convenção Internacional pela Clínica Prática: "Levantamento Olímpico para Força e Potência nas Lutas". Bacharel em esporte pela USP, Preparador físico especialista em Judô e LPO e ex-atleta de elite de Judô e Levantamento de Peso Olímpico pelo Esporte Clube Pinheiros, suas valiosas informações podem ser obtidas clicando no título acima.


quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Considerações sobre a preparação física de judocas

Entre as décadas de 1980 a 1990 os judocas brasileiros se utilizavam com freqüência das corridas de curta, média e longa distância na preparação física geral. Este método, usado principalmente por Aurélio Miguel, influenciou na preparação física de uma geração de judocas brasileiros. Apesar de contribuir para a melhoria da condição cardiorrespiratória, este método não entra em acordo com o princípio da especificidade , afinal “lutador tem que lutar e não correr”.

É fato que a condição cardiorrespiratória é essencial para dar suporte aos intensos combates realizados durante o randori ou o shiai, além de contribuir para melhor recuperação entre os combates na remoção do ácido lático gerado. Entretanto, no judô esta condição cardiorrespiratória se desenvolve na presença de um oponente em ambiente aberto e intermitente , e não em um ambiente fechado e contínuo sem a presença de um oponente, a exemplo das corridas . O treinamento de modo intermitente da capacidade cardiorrespiratória, orientada pelo princípio da especificidade, deve reproduzir as situações encontradas no shiai.

A preparação física de judocas de competição é uma verdadeira alquimia ao deparamos com a necessidade de se trabalhar capacidades físicas distintas, a exemplo de força e resistência, que mobilizam diferentes sistemas de produção de energia. Se a condição cardiorrespiratória se destaca pelo desenvolvimento da capacidade aeróbia, apoiada no recrutamento de fibras musculares de contração tipo I, a força e a potência motora se destacam pelo desenvolvimento da capacidade anaeróbia, lática e alática, apoiadas no recrutamento das fibras musculares de contração tipo IIa e IIb. Como trabalhar estas diferentes capacidades, mas que se somam na exigência dos combates ?

Ao abordarmos a força e potência como componente do desempenho, verifica-se a utilização de exercícios de musculação na preparação física dos atletas. Estes exercícios são predominantemente de cadeia cinética aberta, monoarticulares e realizados em ambiente fechado. Os movimentos potentes das técnicas de judô são de cadeia cinética fechada, multiarticulares, realizados em ambiente aberto.

Os exercícios de musculação oferecem pouco quando comparada aos exercícios de levantamento de peso olímpico, que são predominantemente de cadeia cinética fechada, multiarticulares, realizado em ambiente fechado, além de serem considerados pela literatura científica os que geram maiores picos de potência. Modalidades abertas como o judô, necessitam de movimentos que envolvam potência, coordenação, flexibilidade, equilíbrio e controle.

Apesar da musculação e do levantamento de peso olímpico não reproduzirem os movimentos específicos, o trabalho de força e potência é fundamental para judocas competidores . No entanto, para melhor benefício dos exercícios de levantamento de peso olímpico, é necessário aprendizado técnico correto que possibilita aumentar os pesos com segurança e estimular a capacidade de recrutamento neuromuscular com máxima eficiência e mínimo de esforço.

Executados de modo seguro e coordenado melhoram a potência motora, promovem a correção postural, além de ajudar na prevenção de lesões com o fortalecimento das estruturas osteoligamentares e ganhos de flexibilidade e mobilidade articular, principalmente da região da cintura pélvica e escapular . Os exercícios de levantamento de peso olímpico promovem aumento da potência devido à capacidade de mobilização das cadeias musculares em nível superficial, intermediário e profundo.

domingo, 5 de setembro de 2010

A cultura do treino e seus reflexos no desempenho

Seção de treino é o nome que se dá ao treinamento diário orientada pelo técnico, no caso do judô a figura do sensei. Gostaria de refletir sobre a condução do treino de judô. Durante os treinamentos são realizados corridas de aquecimento, quedas, exercícios específicos, entradas de golpe, randori.


Centro de Treinamento de Bastos, SP

 Sugiro que paralelo ao randori, que é a lapidação para o shiai, a competição, devam ser trabalhados exercícios tático-físicos em condições intermitentes. Tais exercícios consituem-se em dividir o randori em fases:

• Domínio de pegada de manga;

• Domínio de pegada de gola;

• Domínio de pegada manga e gola;

• Disputa de pegada em posição invertida (canhoto vira destro, destro vira canhoto) e assim vai.

• Defesa com movimentação.

O treinamento técnico-tático deve ocupar boa parte do treinamento de judocas de alto nível, considerando que é pelas formas de pegada ou kumi-kata que se controla o combate. Entre os exercícios de estratégia estão:

Sara Menezes busca domínio de pegada contra judoca belga.

• Como dominar a manga?

• Como dominar a gola?

• Como dominar manga e gola?

• Quando e como inverter o jogo da posição destro pra canhoto ou canhoto pra destro?

• Como trabalhar a inspiração-expiração, o ki, para a entrada de golpe?

• Recuperação de posição, movimentação e transição para o solo.

A cultura do treino se constitui na forma de conduzir o treino e seus reflexos na competição, os conteúdos gerados na orientação física, técnica é tática. Questões sobre a cultura do treinamento entre outras são fundamentais no judô de competição onde, devido ao nivelamento entre os atletas, vence a competição quem erra menos e se arrisca mais.


Até breve

Everson Indio

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O que pensar na preparação física de judocas

Para se chegar aos resultados almejados nas principais competições de judô, há de se considerar todas as variáveis que compõe um treinamento de alto nível. Dentre estas variáveis gostaria de fazer considerações sobre a preparação física, peça essencial para a sustentação da condição técnica e tática do atleta.
Com as últimas alterações nas regras das competições de judô determinadas pela FIJ, sustentadas por meio de arbitragem rigorosa, orientadas a punir severamente o atleta que contrariá-las dentro do shiai-jô, trouxe como mudança combates mais dinâmicos e interessantes de se assistir. Paralelamente, com o aumento de meetings e campeonatos internacionais, a transmissão de competições de judô pela televisão também tem aumentado, o que vem acontecendo como tendência desde 2000 com a adoção do quimono azul. Este fator cria a necessidade de se trabalhar em função de um calendário competitivo.


A condição de destaque do judô brasileiro no cenário internacional tem caminhado para horizontes mais profissionalizados onde a preparação física deve ser conduzida por preparadores físicos que compreendam a modalidade em nível biológico, antropológico e social, a fim de se conectar com o universo do judô e suas redes, que vai além do aspecto competitivo.
Disse o mestre Jigoro Kano que “o judoca não se aperfeiçoa para lutar, luta pra se aperfeiçoar’, e é neste pensamento que o trabalho de preparação física para judocas de alto nível deve ser conduzido. Dar suporte ao randori e shiai, fundamentais para o treinamento e competição, respeitando as limitações e aumentando as potencialidades do atleta, compreendida em curto, médio e longo prazo.

QUAL O PONTO DE PARTIDA DA PREPARAÇÃO FÍSICA DE JUDOCAS?


Os estudos sobre a intermitência permitiram aos preparadores físicos de judô conhecer melhor as respostas fisiológicas geradas durante os combates, o que de certa forma possibilitou ao treinamento maiores bases científicas. No entanto, sabe-se que a preparação física para judocas, mesmo que adequada, só se torna eficiente quando estamos diante de atletas de elevado nível técnico-tático. Paralelo aos treinamentos que reproduzam a situação de intermitência há a necessidade de se trabalhar a força e a potência muscular em função dos combates exigirem movimentos rápidos e potentes.


Durante a competição os esforços gerados são de alta intensidade, a duração é indeterminada e o intervalo de descanso entre os combates na maioria das vezes é curto, o que resulta em recuperação incompleta da fadiga neuromuscular. Um trabalho de preparação física que melhore os componentes intermitentes envolvidos e o treinamento de força e potência deve estar baseado na interpretação destas condicionantes.

COMO PENSAR O TREINAMENTO DE FORÇA E POTÊNCIA?

Para elevar o nível de força e potência durante os combates, preparadores físicos têm procurado apoio nos exercícios de levantamento de peso olímpico. O interesse por estes exercícios deve se ao fato de serem exercícios multiarticulares, que promovem aumento da força relativa potencializado a capacidade de gerar força e potência muscular em tempo mínimo, na mobilização dos grupos musculares em nível superficial, intermediário e profundo. O aumento da força relativa e a da velocidade de aceleração nos movimentos necessitam de exercícios que promovam aceleração do objeto (colega de treino ou peso livre) a ser levantado sem a necessidade de desaceleração no final do movimento.

Veja este vídeo sobre a preparação da equipe chinesa de levantamento de peso olímpico.



Veja este vídeo sobre a ciência do levantamento de peso olímpico:


No entanto, para se obter um melhor benefício de exercícios que combinem força e velocidade, como os do levantamento de peso olímpico, é necessário adquirir conhecimentos técnicos básicos para se ensinar de forma correta, assim como, conhecer os tipos de exercícios para garantir variabilidade durante o treinamento e segurança na execução técnica. Uma técnica apurada permite levantar pesos maiores com segurança e elevar os níveis de recrutamento neuromuscular com máxima eficiência e mínimo de esforço.

  


É bom considerar que nem sempre se devem aplicar os mesmos exercícios para atletas diferentes. Esta questão está relacionada com o fato de haver atletas com limitações articulares, lesões e encurtamento de determinados grupos musculares. Neste caso, o mais sensato seria realizar determinados exercícios para:

  • Aperfeiçoamento nas técnicas de levantamento de peso olímpico;

  • Correção postural;

  • Correção de déficits de força bilateral com reequilíbrio muscular;

  • Ganhos de flexibilidade e mobilidade articular para músculos encurtados e articulações com limitações nos movimentos.

    QUAL A VANTAGEM EM RELAÇÃO AO TREINAMENTO DE FORÇA COM MÁQUINAS?

    As máquinas foram criadas para treinar músculos e não movimentos. Modalidades abertas como o judô, necessitam trabalhar movimentos que envolvam coordenação, equilíbrio e controle, seja com ou sem resistência.

     
    Ginásio com aparelhos de musculação.

    As máquinas eliminam qualquer condição de estabilização, controle e equilíbrio, pelo fato de operarem em um padrão de movimento fixo e criar a necessidade do atleta se ajustar à máquina, eliminando a participação de todo o corpo principalmente dos músculos sinergistas.

    Ginásio de levantamento de peso olímpico.


    PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DE FORÇA E POTÊNCIA

    Os treinamentos com exercícios de levantamento de peso olímpico poderão ser realizados de duas a três vezes no microciclo semanal, de 01h00 a 01h30 de atividade. A distribuição do planejamento do treino de força e potência poderá ser de 03 meses para o período preparatório (janeiro, fevereiro e março) e 03 meses para o período competitivo (abril, maio e junho) somando o 1º semestre. A partir do segundo semestre será realizado trabalho de manutenção da condição física atingida e aprendizado de novos exercícios.


    CONSIDERAÇÕES FINAIS

    No judô de alto nível atual, não há mais espaços para a aplicação de conteúdos de cargas sem o profundo conhecimento da modalidade, tanto em seus aspectos gerais quanto específicos. Exige-se dos preparadores físicos a aplicação de exercícios desenvolvidos dentro da especificidade fisiológica e motora do judô. A melhora nos aspectos do treinamento da capacidade resistência de força, por exemplo, deve ser desenvolvida dentro do conceito tático-físico e não por meio de exercícios isolados a fim de garantir somente o estímulo fisiológico da modalidade. Assim sendo, na próxima postagem abordarei sobre a sessão de treino e o que acontece no organismo do atleta quando este recebe um conteúdo de preparação e o que determina a seleção de um ou outro conteúdo de preparação. É importante consideramos que o treinamento esportivo é, em termos gerais, um processo permanente de resposta do organismo à carga de trabalho cujo objetivo é o aumento das potencialidades energéticas.


    Atenciosamente,



    Everson Indio